quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Conversação com a Morte

-Então, você é a Morte? - questionei em meio a um sussurro quase inaudível quando a figura alta e esguia parou ao meu lado. Os trajes negros a cobrindo da cabeça aos pés, como Hollywood exigia.
-Desde que ele me fez existir me chamam assim, mas na verdade eu sempre gostei de Joe.
-Engraçado, sempre achei que a Morte fosse uma mulher.
-Não sou. Também não sou homem. Apenas existo.
-Então você tem absolutamente nada embaixo desse manto?
-Depende.
-De que?
-Depende de você.
-Então você é o que eu quiser? Isso não faz muito sentido.
-Não, eu sou aquilo de que você tem medo.
-Eu não tenho medo de nada. Nunca tive. Nem mesmo de você.
-Então eu sou nada.
-Mais uma vez chegamos a conclusão de que você é apenas um manto preto flutuando.
-Talvez eu seja.
Um minuto se passou enquanto eu a observava. Tudo o que se ouvia era o barulho das máquinas ao meu redor apitando e minha respiração lenta. Ajeitei-me um pouco em meio leito, com um pouco de cuidado para não tirar a intravenosa de meu braço. Não que importasse muito, afinal eu estava prestes a morrer. Estranhamente nada perturbador.
-Me fale como é o lugar para onde vai me levar.
-Quente.
-Vou pro inferno?
-Não, pra Califórnia. O Purgatório fica la.
-Não sabia que a Morte tinha senso de humor.
-Pra onde você acha que vai?
-Faz diferença? Eu vou estar morto, não é como se eu pudesse me dar ao luxo de escolher.
-Então me diga o que você acha merecer.
-Quais são as minhas opções?
-Achei que você soubesse.
-Por que deveria?
-Por ser tão ridiculamente clichê. Céu e Inferno, você sabe.
-Então se eu fui um bom menino, vou pro céu, mas se eu matei algumas pessoas que mereciam vou pro Inferno.
-Algo assim.
Ri um pouco, me divertindo completamente com aquela situação. As coisas ao meu redor começavam a ficar embaçadas e o quarto branco a se tingir de cinza.
-Tenho que ter algum tipo de religião pra me salvar, então?
-Você não precisou de uma pra estar a beira da Morte.
-Achei que só quem acreditava em Deus ia pro céu.
-Não é tão simples assim. Já o vi e vago pelo mundo sem destino a procura de moribundos como você.
-E como ele é?
-Quem?
-Deus.
-Parecido com Bill Gates.
-Oh... bem, poderia ser pior.
-Acredito que sim.
Não sabia o quão estúpido estava sendo, mas permiti que minhas pálpebras cansadas se fechassem. Esperei que o manto negro me envolvesse e me levasse para onde quer que fosse, mas não ouvi nenhum ruído. Respirei fundo, engolindo o pouco de saliva que restava em minha boca amarga.
-Você não cansa de ficar vagando por aí?
-Não tenho escolha. Esse é meu dever, dizer as pessoas quando chegar a sua hora.
-Então você sabia onde e quando me encontrar?
-Eu te acompanhei a vida toda. Estava apenas esperando.
-Devem ter sido vinte e nove anos intediantes.
-Talvez pra você. Os anos se arrastam como minutos pra mim. Foi rápido como tirar um cochilo ou ver um clipe de música ruim.
-Obrigada por isso.
Tomei uma boa lufada de ar antes que meu coração começasse a bater forte e rápido em meu peito. Respirei fundo, travando o maxilar com força e reprimindo um gemido de dor enquanto as batidas se normalizavam.
-Então, qual foi seu momento favorito? Quando aquele negão me baleou?
-Não. Um pouco antes, quando você entrou naquele bar sujo. Mesmo que o lugar fosse deplorável, a música era boa. Enquanto você pedia aquele copo de Whisky barato, My Favorite Things começou a tocar.
-Então a morte gosta de Jazz.
-John Coltrane sempre foi meu favorito. Foi uma pena eu ter tido que levá-lo tão cedo.
Antes que eu tivesse a chance de rir ou perguntar alguma outra coisa, senti meu coração bater rápido de novo e então as batidas ficarem lentas demais, quase parando. O aparelho acima de minha cabeça começou a tocar de forma ensurdecedora um pouco antes que eu sentisse espasmos passando de maneira frenética por meu corpo. Meio segundo depois, um barulho se rompeu pela porta do quarto e ouvi pessoas começarem a gritar. Toda a agitação parecendo longe demais, a milhas de distância dali. Tudo se tornou preto, um borrão. Mas antes que eu tivesse chance de me desesperar, me vi parado ao lado do manto flutuante.
-Eu estou indo agora? - perguntei enquanto via enfermeiros tentando religar meu coração, em vão, e senti o toque de algo tão leve quanto a brisa do começo de uma tarde de Outono tocar meu braço. Olhei para o lado, fitando o que havia dentro do manto mais uma vez e me surpreendendo ao notar que já não sentia mais dor.
-Sim.