sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Soneto 35

Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;

Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço

Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.

(William Shakespeare)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Saudade

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche...

(Martha Medeiros)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

and when I say that something

Vou te contar um segredo. Eu costumo exagerar nas coisas que faço, mas principalmente em tudo o que sinto. Posso ser realmente competitiva quando quero, e quando não gosto de alguém não existe coisa ou pessoa no mundo que me faça mudar de ideia. Quando eu sinto medo, fico aterrorizada de verdade e talvez até deixe de dormir por isso. Eu faço pé firme quando acredito em algo, e se quiser mudar minha opinião tem que ser muito convincente. Quando faço um amigo, assumo um compromisso - e não importa quanto tempo passemos sem nos ver, eu sempre vou estar aqui pra ele. Não tenho vergonha de admitir que me jogo de cabeça no que quero. Pode não ser saudável, mas gosto de pensar que é uma maneira de não desistir fácil das coisas que são importantes pra mim. Justamente por não fazer nada pela metade, é importante dizer que, quando eu sinto saudades, é sufocante ter de lidar com ela - como se nada fosse capaz de suprir com essa necessidade da presença. E talvez, só talvez, seja desnecessário dizer que, quando eu amo, eu amo; sem medo ou arrependimentos, apenas me entrego.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

'Me perco, me procuro e me acho'

Disse a uma amiga que sabia o que queria, mas tinha medo. Ela sorria como o sol e era tão livre quanto um pássaro sem destino certo, coisa bonita e assustadora de se ver; inconstante, mas viva. Contei que desejava conseguir pular de um lugar para o outro sem medo de errar o passo, e ela disse que era como brincar em um balanço - a vida, eu quero dizer.
'-A primeira vista, parece assustador - ela disse, sorrindo um de seus sorrisos de sol - Você tem medo de subir, porque parece alto demais, perigoso demais.'
'-Ou, - comecei, pronta para entender - porque pareça imprevisível demais.'
'-Sim, mas veja: a primeira tentativa é sempre estimulante, você sempre vai desejar ir mais alto'
'-É verdade - admiti, pesarosa, e depois lembrei - Mas depois vem o medo de não conseguir descer.'
Ela riu e eu também me permiti sorrir, enquanto observava ela concordar com meu ponto.
'-E é natural. Assim como também é normal esperar que você caia e rale os joelhos na primeira tentativa de aproveitar.'
'-Sim, sempre fui afoita demais,. - prontamente reconheci, e ela manteve seu sorriso'
'-Pode ser. Mas nunca esqueça que, caso queira voltar, basta enterrar os pés no chão.'
Não tive outra opção a não ser beber tudo o que havia acabado de ouvir, palavra por palavra, enquanto observava o meu sol abrir suas asas mais uma vez.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

keep you in the dark...

"A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, idéias, e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis ambos significando a representação de um ator, atuação, fingimento (no sentido artístico). Essa palavra passou, mais tarde, a designar moralmente pessoas que representam, que fingem comportamentos.

Um exemplo clássico de ato hipócrita é denunciar alguém por realizar alguma ação enquanto realiza a mesma ação."


(Wikipédia)


Não sou a melhor em julgar o caráter das pessoas e geralmente nem dou muita importância pra isso (vivendo e aprendendo), mas eu 'to pedindo pra Deus pra eu não ter errado dessa vez. Ou isso realmente vai doer.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

One Last Chance

In my life I don't mean much to anyone
I've lost my way can't go back anymore
Once I had everything now it's gone
Don't tell me again coz I've heard it all before

Some people say that I'm not worth it
I've made mistakes but nobody's perfect
Guess I'll give it a try

I've got one last chance to get myself together
I can't lose no more time it's now or never
and I'll try to remember who i used to be
I've got one last chance to get myself together

The time has come for me to change again
I can't carry on like this, I will lose my friends
don't say that you have given up on me.
Just give me the time and space to heal my head

I don't wanna be misunderstood
I've got to take this chance and make it into something good

(One Last Chance, James Morrison)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Crime Perfeito

Sabe de uma coisa? 'Tava aqui pensando na vida como costumo fazer às vezes - sempre - e é quase frustrante admitir, mas tu provavelmente não vai ser capaz de notar o que 'ta tão ridiculamente explícito há certo tempo nessa situação. O quão divertido é isso?

HA!

domingo, 26 de junho de 2011

happiness is...

A grama estava molhada quando ela deitou-se ali, braços e pernas abertos, cabelos espalhados por todos os cantos em uma bagunça bonita de se ver. Uma jujuba - vermelha, porque eram suas preferidas - na boca, tingindo-a gradualmente enquanto sentia o sabor doce se espalhar; a lingua estalando no céu da boca e fazendo um breve barulho engraçado. Sempre alternando os olhares de seu saco de balas para o céu - azul, bonito, com muitas nuvens que pareciam adorar dançar ao redor do nada. Era mais um daqueles dias em que nada acontecia, mas travava uma batalha consigo mesma, procurando por respostas para perguntas que surgiam tão lentamente como uma daquelas nuvens engraçadas no céu. Mudando e tomando formas e rumos diferentes, se dissipando quase tão devagar quanto surgiram, indo embora sem permissão e deixando-na com todas aquelas duvidas e incertezas para o que seria um outro dia como aquele.
Tão engraçado quanto fosse admitir que sua vida era previsível demais, não deixava de ser triste. Era mais uma daquelas pessoas que se permitiam parar e ver o tempo correr, sem planos ou expectativas. Não acomodadas demais ou angustiadas de menos, apenas alguém que não tinha mais vontade de deixar de apenas estar ali, sem motivo algum. Como alguém que não desistia nunca, mas estava cansada demais para continuar correndo.
Era assim que acontecia. Enquanto a vida passava diante de seus olhos, pegando carona em cada nuvem que soprava pra longe, ela mantinha-se ocupada com suas jujubas e todas aquelas perguntas sem repostas que roubavam tempo suficiente para fazê-la existir e nada mais.

terça-feira, 31 de maio de 2011

do you want to know a secret?

Do you promise not to tell?
Closer, let me whisper in your ear
Say the words you long to hear[...]
I've known the secret for a week or two,
Nobody knows, just we two.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

No Fun

Não sentia mais dor.

Seus braços, pernas e barriga sangravam, mas não sentia a ardência dos cortes. Há muito aquele sentimento havia a deixado, levando consigo a sensação de prazer - gostava de ver seu sangue pingar e escorrer por sua pele pálida.

Agora, no entanto, tudo o que sentia quando encarava as manchas de sangue seco em seu corpo era repulsa.

Repulsa de si mesma.

Porque todos estavam vivendo normalmente, e ela havia se fechado em um casulo com medo de encarar a realidade. Repulsa de si mesma, porque havia permitido se deixar levar por toda aquela angústia e agora não tinha forças nem mesmo para chorar.

E, acima de tudo, sentia nojo, raiva e pânico, porque sabia estar fazendo as pessoas que amava sofrer, mas nem mesmo aquilo era suficiente para que permitisse que as lágrimas rolassem por sua face magra – o lábio amargo.

Ela olhou pela última vez para o céu escuro – e macio. Macio como veludo. Salpicado por milhares de estrelas que eram bonitas, mas não iluminavam nada – e sentiu seu corpo cair em queda livre - os olhos fechados impedindo que qualquer lágrima caísse. E quando seu corpo se chocou contra a água, as manchas de sangue foram embora - lavando seu corpo e sua alma.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

the broken clock is a confort

Eu costumo não colocar meus amigos em patamares. Pra mim não existem ‘melhores amigos’ e só amigos. Existem apenas aqueles que, de alguma maneira, sempre sabem o que fazer e aqueles que me conhecem bem demais. Duas coisas completamente diferentes, ao meu ver. O amor que eu sinto por cada um deles é igual, aqueles que passaram uma vida comigo e aqueles que acabaram de chegar. Mas hoje eu descobri que tem uma grande diferença entre os outros amigos e você. Não de uma maneira boa, ou especial. Não. Porque você sempre, sempre, sabe o que fazer pra me fazer sentir mal, miserável. Você sempre sabe em que ferida aberta mexer, que palavras usar pra me deixar despedaçada, e você sabe disso. E isso me deixa doente, me faz sentir horrível, por dentro e por fora, porque eu não consigo fazer você sentir o mesmo. Não por falta de argumentos, mas por falta de vontade. Porque eu não gosto, eu odeio ver você triste. Você é fútil, egoísta, orgulhosa e arrogante. Às vezes eu queria que você calasse a boca e me deixasse falar, me deixasse explicar o que eu queria que você entendesse de uma vez por todas - que você ao menos tentasse me entender. To tão cansada de me sentir mal por causa disso, de você. Tão cansada de passar dias e noites mal, me culpando por algo que sequer fiz. Cansada de sentir dor como to sentindo agora, de me sentir insignificante. Eu odeio isso, odeio o modo como você me trata, como joga as coisas na minha cara. Me odeio por saber que é culpa minha, que eu poderia ter evitado cada lágrima que derramei por sua causa, por cada briga estúpida. Me odeio mais ainda por saber, por admitir a cada maldito dia, que, caso eu simplesmente sumisse da sua vida e jogasse nossa amizade no lixo, eu me arrependeria a cada segundo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

haviam seis cubos de açucar, ela notou,perfeitamente alinhados

Com cinco tiros no peito e seus tantos graus de miopia, John me perguntou porque estava triste. Respondi que apenas não havia nascido para ser feliz e ele riu.

sábado, 14 de maio de 2011

Cansada

De tudo. De me sentir sozinha, de chorar por nada, de me sentir insignificante toda hora... cansada de sentir medo de dizer como me sinto pras pessoas.Cansada de ser quem eu sou, porque é ISSO que me atrapalha, é isso que me faz ser esse peso morto estúpido. Ta tão difícil respirar, até isso me faz sentir dor.

domingo, 24 de abril de 2011

24/04/2011

"Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida. Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades... Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei... Sinto saudades da minha infância, do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro, do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser... Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando no futuro... Sinto saudades do futuro, que se idealizado, provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei! De quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer. Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito! Daqueles que não tiveram como me dizer adeus; de gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só enxerguei de vislumbre! Sinto saudades de coisas que tive e de outras que não tive mas quis muito ter! Sinto saudades de coisas que nem sei se existiram. Sinto saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências... Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer! Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar! Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, sinto saudades das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade. Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que... não sei onde... para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi... Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades. Em japonês, em russo, em italiano, em inglês... mas que minha saudade, por eu ter nascido no Brasil, só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota. Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria, espontaneamente quando estamos desesperados... para contar dinheiro... fazer amor... declarar sentimentos fortes... seja lá em que lugar do mundo estejamos. Eu acredito que um simples "I miss you" ou seja lá como possamos traduzir saudade em outra língua, nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha. Talvez não exprima corretamente a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas. E é por isso que eu tenho mais saudades... Porque encontrei uma palavra para usar todas as vezes em que sinto este aperto no peito, meio nostálgico, meio gostoso, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos. Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis! De que amamos muito o que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência..."

(Saudades, Clarice Lispector)

sábado, 16 de abril de 2011

Óculos Mágicos

Certa vez assisti um filme, com um ator cujo o nome não lembro agora e um garotinho realmente adorável. Esse garotinho tinha acabado de perder os pais e esse cara acabou ganhando essa companhia pequena de presente, mesmo relutando muito no começo. E acontece que esse menininho era realmente inseguro com as pessoas a sua volta, com medo de tudo, do mundo. Então esse tio, é, esse cara interpretado pelo ator famoso que eu não lembro o nome, deu um par de óculos velhos pro garotinho assustado dizendo que eram mágicos; dizendo que quando ele os colocava, ficava invisível aos olhos das pessoas e que ele não precisava mais ter medo de nada nem ninguém porque, para o resto do mundo, era como se ele não estivesse ali -como se não existisse. Foi um gesto bobo, coisa que costumamos ver em uma comédia dramática, mas eu achei tão bonito. Achei bonita a atitude de ajudar alguém que ele mal conhecia, mas que já havia aprendido a amar e achei bonito o modo como o garoto parecia orbitar em torno dele, o modo como confiava naquele adulto desajeitado e beberrão de cerveja. Era engraçado de se ver o garotinho com aquela armação enorme no rostinho tão pequeno confiante de que tudo estava bem. E a verdade é que já assisti esse filme uma tantas vezes e não consigo deixar de imaginar como seria estar invisível pro resto do mundo. Num mundo onde a perfeição é a unica coisa que, de fato, importa. Um mundo onde você é aceito pelo que você aparenta ser e não pelo que você é na real. Na minha enorme lista de desejos agora 'ta rabiscado que eu gostaria de ser invisível por um dia, pelo menos para certas pessoas. Não existir por algum curto espaço de tempo e deixar tudo de lado, o medo constante do nada e do tudo, de falhar com aqueles que me importam. Poder andar por aí, ou simplesmente fazer nada, mas sempre consciente do que acontece a minha volta. Observar tudo como alguém que vê um filme em uma tela grande, se dando ao luxo de observar cada cena com atenção; sem perder qualquer movimento, qualquer palavra, sem o medo de ser descoberta e parecer louca. Cada sorriso e cada lágrima refletidos nas lentes dos meus óculos mágicos e gravados na minha retina, saboreando a sensação de ser uma intrusa bem sucedida e um tanto sacana por um dia inteiro.

I lit the match that burned the bridge

Ela costumava ser bonita com seus sorrisos de raio de sol. O cabelo bagunçado e meias listradas nos pés, sem realmente se importar com o que havia lá fora. Era uma bagunça constante o modo como vivia, como pensava. Costumava trocar palavras sem perceber e tropeçar nos próprios pés, mesmo não estando distraída, era apenas ela mesma, aprendendo a viver como podia. Tinha seus momentos tristes com lágrimas com gosto de soro e haviam aqueles alegres, momentos em que não se preocupava com mais nada. Com suas dores e seus amores saídos de dentro de um romance desgastado. Era até bonito de se ver o quanto parecia feliz com tão pouco, quase nada. Triste, não existe mais. O sol apagou e só sobrou aquele tom melancólico de cinza, descolorindo tudo devagar, desbotando suas meias gradualmente, com sorrisos de tristeza e solidão. Uma vida tão bonita à mercê de um mundo tão mesquinho e louco, em escalas deprimentes de preto e branco.

domingo, 3 de abril de 2011

"Por que você acha que o rock significa tanto para as pessoas?"

"Porque é primitivo e não tem embromação... é o melhor de tudo. E mexe com a pessoa. É a batida. Na floresta, eles têm o ritmo, no mundo inteiro. Você faz o som, todo mundo adere. Eu li que Malcom X, Eldrige Cleaver ou alguém famoso disse que, com o rock, os negros permitiram que os homens brancos de classe média usufruíssem de seu corpo novamente, colocaram o corpo e a mente ali. É mais ou menos isso. Mexe com a pessoa. Comigo, mexeu. De todas as coisas que estavam acontecendo quando eu tinha 15 anos, foi a unica que conseguiu mexer comigo. O rock era real. Tudo mais parecia ilusório. O lance do rock, do bom rock 'n' roll - o que quer que "bom" signifique, e toda essa merda - é que é real. E o realismo mexe com a gente, quer queira quer não. A pessoa reconhece a autenticidade ali, como na verdadeira arte. O que quer que seja arte, caros leitores. É isso. Se é autêntico, em geral é simples. E, se é simples, é verdadeiro. Mais ou menos isso."

(Lembranças de Lennon, Pág. 87)

sábado, 19 de março de 2011

He's as blind as he can be

He's a real nowhere man
sitting in his nowhere land
making all his nowhere plans
for nobody
[...]
Doesn't have a point of view
knows not where he's going to
Isn't he a bit like you and me?

(Nowhere Man, The Beatles)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Note

Note que nunca fui apenas uma pessoa. Fui, e continuo sendo algumas faces e versões felizes e tristes de mim, de outros. Note que nunca tive um só sorriso. Note que nunca tive um só olhar. Note que nunca estive segura, nunca estive no lugar certo. Note minhas pernas cansadas de correr em círculos e parar no mesmo lugar. Note e anote em seu pequeno bloco de anotações, perceba que sou Clarisse e Julia, sou uma bagunça em forma de menina mulher que não consegue crescer. Note, note e anote, perceba; perceba que não sei quem sou.

domingo, 6 de março de 2011

the big 'x'

Sou assim; sofro antecipadamente, sempre. Eu ainda não sei o que me espera, mas antes que eu possa controlar as lágrimas já estão jorrando dos meus olhos como uma enxurrada que demora muito pra cessar. Quando alguém diz que 'precisa conversar' imagino milhares de coisas que posso ter feito de errado para deixá-lo chateado. Quando estou prestes a cair no chão, fecho os olhos e posso imaginar a dor que vem junto. Quando o relógio marca as cinco da tarde, mas o céu está escuro, sinto sono. Quando assisto a uma série e o personagem ainda sequer abriu a boca, me dou ao trabalho de rir horrores. E é como costuma ser, dou um passo a frente e cinco para trás mais tarde, tornando a repetir o possível erro mais vezes. Mas agora a menina viu que é errado, que não é justo; é doloroso.
Porque, ela percebeu, quando as coisas começarem a desmoronar de verdade, estará tão centrada em sua própria dor que sequer perceberá o chão sumir abaixo de seus pés. Serão seus braços e pernas segurando firmemente ao redor de seu corpo quebrado numa tentativa de manter os pedaços juntos; sua cabeça estará em queda livre até a inconsciência quando finalmente perceber que deu voltas em torno do nada, chegando a lugar nenhum e então deixando uma vida que pediu, pediu desesperadamente, para ser vivida, para trás.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

viver em dor, o que ninguém entende

Clarisse era Clarisse. Clarisse com seus livros e defeitos, Clarisse com seus sorrisos que não valiam de nada e discos de vinil espalhados pelo quarto. Era Clarisse com as unhas quebradas e olhos vermelhos; Clarisse com punhos e tornozelos cortados; Clarisse com a lâmina escondida no meio de suas meias. Clarisse com seus cigarros e Clarisse com sua ânsia por respostas. E tudo cheirava a morte, quando ela se ocupava em respirar; e doía, doía, mas ela aprendeu a não se importar com a dor. Era a Clarisse tímida com a risada alta demais. Clarisse que chorava por tudo e pedia desculpas por tudo. Que tinha medo e se escondia embaixo das cobertas; Clarisse que soluçava, porque mesmo estando rodeada por uma multidão, era sozinha; Clarisse de ninguém. Clarisse que falava consigo mesma, tentando entender o mundo; Clarisse com cabelos e cabeça bagunçada - Clarisse louca com seus livros e sua música, Clarisse com seus personagens inventados, Clarisse com seus contos. Clarisse que não era real, mas sempre fora Clarisse.

"Mas esse vazio ela conhece muito bem/De quando em quando é um novo tratamento/Mas o mundo continua sempre o mesmo"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

faz de conta que tudo o que ela tinha não era de faz de conta

Ela não se importou em olhar para trás, para todas as expressões curiosas e divertidas que a encaravam enquanto se preocupava em manter-se em cima dos saltos apertados; o 'poc poc' soando de modo ritmado contra o assoalho de madeira enquanto se dirigia até o balcão de aparência imunda do outro lado do salão de aspecto igualmente deplorável. Um homem de dentes amarelados e cabelos ralos e sujos lhe atendeu com um sorriso beirando ao cinismo enquanto lhe perguntava o que queria tomar. Ela pediu algo forte enquanto se ocupava em tirar os sapatos e cruzava as pernas de maneira pouco confortável, se inclinando o suficiente para apertar as solas dos pés; os olhos cansados e o corpo tenso. Ergueu os olhos o suficiente para encontrar o sorriso de escárnio do homem que lhe entregava sua bebida; um pequeno copo cheio de um liquido âmbar que ela não se preocupou em identificar; um leve tremor tomando conta de seu corpo enquanto virava o copo de uma só vez e o líquido desconhecido descia queimando por sua garganta, esquentando seu corpo imediatamente. O homem ergueu as sobrancelhas, surpreso, no mesmo instante em que ela lhe devolvia o copo e pedia uma nova dose. E isso se repetiu uma terceira, quarta, quinta e sexta vez; não podia sentir suas pernas e sua cabeça, agora recostada contra o balcão, pesava uma tonelada.
-Dia ruim? - a voz grave do homem soou em seus ouvidos e ela se limitou em erguer um pouco os olhos, sorrindo meia boca enquanto fazia um gesto ordenando que lhe enchesse o copo mais uma vez.
-De certa forma, sim. - e ela contou. Contou que havia sido promovida a gerente executiva aquele dia, que na semana passada havia recebido um telefonema de seus pais, contando que a cirurgia para retirada de um pequeno tumor na região do cérebro de sua mãe havia corrido bem e que ela estava se recuperando. Contou que o namorado com quem estava há quatro anos, finalmente havia decidido levar seu relacionamento a sério, a convidando para morar com ele - coisa que ela vinha esperando há tempos. Contou que finalmente havia quitado a divida do carro que tanto havia suado para comprar e que finalmente poderia se dar ao luxo das merecidas férias que vinha planejando para o meio do ano. Tudo estava correndo bem. Era uma mulher bem sucedida, com bons amigos, uma família unida e um namorado que amava.
-Perdão, mas, eu não entendo - o homem disse enquanto se recostava no balcão, coçando a parte de trás da nuca, confuso - esses são motivos para se comemorar. Não vejo motivos para essa melancolia.
Ela riu para si mesma, enquanto virava o copo e puxava uma nota da carteira, a depositando de qualquer maneira em cima do balcão.
-É só que eu estou esperando o momento em que algo vai acontecer para estragar isso. - ela disse piscando, os sapatos nas mãos enquanto caminhava para fora do bar.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Flores

Tenho medo de contar a alguém que talvez esteja um pouquinho louca. Acho que não conseguiria explicar essa sensação estranha que sinto dentro de mim. É como se uma mão invisível apertasse meus pulmões e, certas vezes, meu coração também. Eu sinto essa dor estranha, que não dói de verdade, mas me faz perder o fôlego e ver tudo num tom melancólico de cinza. Algumas vezes eu não sei o que sentir, mas em dias como hoje eu só posso sentir medo. Não sei quão absurda posso soar, mas parece que o Anjo Triste da Morte me faz visitas constantes, mesmo quando eu estou acordada. Quase posso ver as asas branquinhas de longe e sentir dois pares de olhos me perfurando e analisando, com cautela, sem se aproximar, mas sem se mover de onde está. Eu sinto medo e sei que só o que me resta é orar pra Deus tirar essa angústia de mim, mas parece que quando isso acontece, eu não encontro palavras pra lhe dirigir. É em momentos como esses, que eu me pergunto o quão doloroso pode ser morrer. Se o medo das pessoas, tão absurdo, é só porque não sabemos de fato o que encontrar depois que deixar tudo aqui. Eu fecho os olhos com força e respiro fundo, começando a pensar em todas as escolhas que já fiz, fossem elas boas ou ruins. Me pergunto o que pesaria mais pra me fazer ir pro céu; se minhas escolhas ruins e todos os pecados que já cometi ou se o momento em que deixei essa vida de lado e me entreguei à Deus como nova criatura. Porque nem mesmo essa determinação é capaz de me fazer deixar de ser alguém com defeitos e errar todos os dias. Queria que Deus me fizesse ver através de seus olhos, me mandasse um sinal que seja, para poder enxergar o que estou perdendo, onde estou errando. Queria que esse cheiro de morte fosse embora.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

everybody lies

Mentir é ruim, dizem por aí. Ninguém gosta de mentiras, exceto os mentirosos, já que de algum modo se beneficiam com isso. Eu nunca gostei de mentir, sempre tive essa coisa na minha cabeça que me diz que, uma vez que você mente, tem que dar continuidade a mentira e uma hora você vai acabar se perdendo nela. Só que, mesmo assim, eu nunca fui capaz de parar de mentir pra mim. É mais fácil acreditar no que minha mente idealiza que ter de viver o fracasso. Sempre foi assim e acho que não importa o quando eu cresça e mude, sempre vou optar por escolher o caminho mais curto. Sempre, sempre, vou tentar me convencer que tudo vai ficar bem quando estiver em um momento ruim e sempre vou lembrar a mim mesma como a vida é maravilhosa, mesmo que seja mentira. Vou continuar fingindo não me importar com o que acham de mim e manter esse sorriso ridículo no rosto quando falarem comigo. Vou continuar chorando escondido quando ninguém estiver perto e guardar minhas frustrações, como sempre foi. Direi os 'obrigada' e 'desculpe' quando necessário e então abaixar a cabeça, como costume. E quando não aguentar mais fingir ser quem não sou, vou afastar as pessoas como sempre acontece, mesmo que isso signifique ficar sozinha. Mas viver sozinha é fácil, já que prefiro acreditar nisso também.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

all you see

Tudo o que você vê e espera acontecer, mas não é de verdade. Quando eu quero e desejo muito algo sinto uma coisinha, uma sensação estranha dentro de mim, quase como se fossem todas aquelas borboletas ou seja lá o que as pessoas dizem sentir quando gostam muito de alguém, mas é como se elas fossem tantas e tantas no estômago e no meu peito, arranhando e machucando, e é quase como se eu sentisse que posso morrer se não conseguir o que quero. Não sei e acho que nunca vou descobrir, ao certo, se isso é egoísmo ou não, mas eu costumo pensar que quando você quer ser feliz, por ser - por você mesmo, sabe? - depois de tanto tempo perdido e tantas escolhas mal feitas e tantas batalhas perdidas, desejar ter algo e se sentir completo pra alcançar a felicidade não é uma coisa ruim. É como quando dizem que, quando se faz coisas boas, boas coisas vão acontecer pra você. Eu não sou perfeita, mas me esforço pra fazer o certo e tentar ser alguém legal, ser uma 'boa garota'. E eu realmente me sinto bem quando ajudo alguém, não importa de que maneira, porque eu sei que foi o certo a se fazer. Eu não espero que venham grandes recompensas com cada gesto meu, só que às vezes me pergunto que tipo de pessoa eu sou; boa ou ruim. Porque, não importa o quanto eu me esforce, parece que quando eu estou pertinho de conseguir ficar bem, quase feliz, surge algo pra atrapalhar e mostrar que eu não mereço isso. É frustrante e um pouco revoltante saber que tudo o que vou conseguir, vai ser ver a felicidade dos outros de longe. Quase como uma criança que não recebeu os presentes de Natal porque não foi boazinha. Merda, eu queria saber onde estou errando aqui. É como se o tempo não passasse e eu repetisse a mesma cena mil vezes, sem me dar conta de nada. Eu sinto tantas coisas, agora. Medo, frustração e um pouquinho de inveja das outras pessoas também. Apesar de tudo, acho que essa dor é o pior. Essa dor dilacerante no meu peito porque o que eu mais desejo agora é ser feliz, um pouquinho que seja, só pra saber como é viver sem o medo constante de errar de novo e de novo e, principalmente, sem essa duvida de procurar saber se sou uma pessoa ou não.