segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

viver em dor, o que ninguém entende

Clarisse era Clarisse. Clarisse com seus livros e defeitos, Clarisse com seus sorrisos que não valiam de nada e discos de vinil espalhados pelo quarto. Era Clarisse com as unhas quebradas e olhos vermelhos; Clarisse com punhos e tornozelos cortados; Clarisse com a lâmina escondida no meio de suas meias. Clarisse com seus cigarros e Clarisse com sua ânsia por respostas. E tudo cheirava a morte, quando ela se ocupava em respirar; e doía, doía, mas ela aprendeu a não se importar com a dor. Era a Clarisse tímida com a risada alta demais. Clarisse que chorava por tudo e pedia desculpas por tudo. Que tinha medo e se escondia embaixo das cobertas; Clarisse que soluçava, porque mesmo estando rodeada por uma multidão, era sozinha; Clarisse de ninguém. Clarisse que falava consigo mesma, tentando entender o mundo; Clarisse com cabelos e cabeça bagunçada - Clarisse louca com seus livros e sua música, Clarisse com seus personagens inventados, Clarisse com seus contos. Clarisse que não era real, mas sempre fora Clarisse.

"Mas esse vazio ela conhece muito bem/De quando em quando é um novo tratamento/Mas o mundo continua sempre o mesmo"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

faz de conta que tudo o que ela tinha não era de faz de conta

Ela não se importou em olhar para trás, para todas as expressões curiosas e divertidas que a encaravam enquanto se preocupava em manter-se em cima dos saltos apertados; o 'poc poc' soando de modo ritmado contra o assoalho de madeira enquanto se dirigia até o balcão de aparência imunda do outro lado do salão de aspecto igualmente deplorável. Um homem de dentes amarelados e cabelos ralos e sujos lhe atendeu com um sorriso beirando ao cinismo enquanto lhe perguntava o que queria tomar. Ela pediu algo forte enquanto se ocupava em tirar os sapatos e cruzava as pernas de maneira pouco confortável, se inclinando o suficiente para apertar as solas dos pés; os olhos cansados e o corpo tenso. Ergueu os olhos o suficiente para encontrar o sorriso de escárnio do homem que lhe entregava sua bebida; um pequeno copo cheio de um liquido âmbar que ela não se preocupou em identificar; um leve tremor tomando conta de seu corpo enquanto virava o copo de uma só vez e o líquido desconhecido descia queimando por sua garganta, esquentando seu corpo imediatamente. O homem ergueu as sobrancelhas, surpreso, no mesmo instante em que ela lhe devolvia o copo e pedia uma nova dose. E isso se repetiu uma terceira, quarta, quinta e sexta vez; não podia sentir suas pernas e sua cabeça, agora recostada contra o balcão, pesava uma tonelada.
-Dia ruim? - a voz grave do homem soou em seus ouvidos e ela se limitou em erguer um pouco os olhos, sorrindo meia boca enquanto fazia um gesto ordenando que lhe enchesse o copo mais uma vez.
-De certa forma, sim. - e ela contou. Contou que havia sido promovida a gerente executiva aquele dia, que na semana passada havia recebido um telefonema de seus pais, contando que a cirurgia para retirada de um pequeno tumor na região do cérebro de sua mãe havia corrido bem e que ela estava se recuperando. Contou que o namorado com quem estava há quatro anos, finalmente havia decidido levar seu relacionamento a sério, a convidando para morar com ele - coisa que ela vinha esperando há tempos. Contou que finalmente havia quitado a divida do carro que tanto havia suado para comprar e que finalmente poderia se dar ao luxo das merecidas férias que vinha planejando para o meio do ano. Tudo estava correndo bem. Era uma mulher bem sucedida, com bons amigos, uma família unida e um namorado que amava.
-Perdão, mas, eu não entendo - o homem disse enquanto se recostava no balcão, coçando a parte de trás da nuca, confuso - esses são motivos para se comemorar. Não vejo motivos para essa melancolia.
Ela riu para si mesma, enquanto virava o copo e puxava uma nota da carteira, a depositando de qualquer maneira em cima do balcão.
-É só que eu estou esperando o momento em que algo vai acontecer para estragar isso. - ela disse piscando, os sapatos nas mãos enquanto caminhava para fora do bar.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Flores

Tenho medo de contar a alguém que talvez esteja um pouquinho louca. Acho que não conseguiria explicar essa sensação estranha que sinto dentro de mim. É como se uma mão invisível apertasse meus pulmões e, certas vezes, meu coração também. Eu sinto essa dor estranha, que não dói de verdade, mas me faz perder o fôlego e ver tudo num tom melancólico de cinza. Algumas vezes eu não sei o que sentir, mas em dias como hoje eu só posso sentir medo. Não sei quão absurda posso soar, mas parece que o Anjo Triste da Morte me faz visitas constantes, mesmo quando eu estou acordada. Quase posso ver as asas branquinhas de longe e sentir dois pares de olhos me perfurando e analisando, com cautela, sem se aproximar, mas sem se mover de onde está. Eu sinto medo e sei que só o que me resta é orar pra Deus tirar essa angústia de mim, mas parece que quando isso acontece, eu não encontro palavras pra lhe dirigir. É em momentos como esses, que eu me pergunto o quão doloroso pode ser morrer. Se o medo das pessoas, tão absurdo, é só porque não sabemos de fato o que encontrar depois que deixar tudo aqui. Eu fecho os olhos com força e respiro fundo, começando a pensar em todas as escolhas que já fiz, fossem elas boas ou ruins. Me pergunto o que pesaria mais pra me fazer ir pro céu; se minhas escolhas ruins e todos os pecados que já cometi ou se o momento em que deixei essa vida de lado e me entreguei à Deus como nova criatura. Porque nem mesmo essa determinação é capaz de me fazer deixar de ser alguém com defeitos e errar todos os dias. Queria que Deus me fizesse ver através de seus olhos, me mandasse um sinal que seja, para poder enxergar o que estou perdendo, onde estou errando. Queria que esse cheiro de morte fosse embora.