Ela não se importou em olhar para trás, para todas as expressões curiosas e divertidas que a encaravam enquanto se preocupava em manter-se em cima dos saltos apertados; o 'poc poc' soando de modo ritmado contra o assoalho de madeira enquanto se dirigia até o balcão de aparência imunda do outro lado do salão de aspecto igualmente deplorável. Um homem de dentes amarelados e cabelos ralos e sujos lhe atendeu com um sorriso beirando ao cinismo enquanto lhe perguntava o que queria tomar. Ela pediu algo forte enquanto se ocupava em tirar os sapatos e cruzava as pernas de maneira pouco confortável, se inclinando o suficiente para apertar as solas dos pés; os olhos cansados e o corpo tenso. Ergueu os olhos o suficiente para encontrar o sorriso de escárnio do homem que lhe entregava sua bebida; um pequeno copo cheio de um liquido âmbar que ela não se preocupou em identificar; um leve tremor tomando conta de seu corpo enquanto virava o copo de uma só vez e o líquido desconhecido descia queimando por sua garganta, esquentando seu corpo imediatamente. O homem ergueu as sobrancelhas, surpreso, no mesmo instante em que ela lhe devolvia o copo e pedia uma nova dose. E isso se repetiu uma terceira, quarta, quinta e sexta vez; não podia sentir suas pernas e sua cabeça, agora recostada contra o balcão, pesava uma tonelada.-Dia ruim? - a voz grave do homem soou em seus ouvidos e ela se limitou em erguer um pouco os olhos, sorrindo meia boca enquanto fazia um gesto ordenando que lhe enchesse o copo mais uma vez.
-De certa forma, sim. - e ela contou. Contou que havia sido promovida a gerente executiva aquele dia, que na semana passada havia recebido um telefonema de seus pais, contando que a cirurgia para retirada de um pequeno tumor na região do cérebro de sua mãe havia corrido bem e que ela estava se recuperando. Contou que o namorado com quem estava há quatro anos, finalmente havia decidido levar seu relacionamento a sério, a convidando para morar com ele - coisa que ela vinha esperando há tempos. Contou que finalmente havia quitado a divida do carro que tanto havia suado para comprar e que finalmente poderia se dar ao luxo das merecidas férias que vinha planejando para o meio do ano. Tudo estava correndo bem. Era uma mulher bem sucedida, com bons amigos, uma família unida e um namorado que amava.
-Perdão, mas, eu não entendo - o homem disse enquanto se recostava no balcão, coçando a parte de trás da nuca, confuso - esses são motivos para se comemorar. Não vejo motivos para essa melancolia.
Ela riu para si mesma, enquanto virava o copo e puxava uma nota da carteira, a depositando de qualquer maneira em cima do balcão.
-É só que eu estou esperando o momento em que algo vai acontecer para estragar isso. - ela disse piscando, os sapatos nas mãos enquanto caminhava para fora do bar.