Certo dia eu acordei, mas não levantei da cama. Porque tudo parecia difícil demais, e eu não queria fazer nenhum esforço. Meus olhos pesavam e meus braços e pernas não queriam se mover. Eu decidi que seria melhor voltar a dormir, mas não consegui. Esperei e esperei, mas o sono não veio. Eu estava cansada. Cansada demais pra levantar e cansada demais pra dormir. Pensei que aquele dia eu apenas existiria e seria o suficiente. E enquanto eu estava ali, ouvindo o silêncio e mais nada, cheguei a conclusão que fazia isso com muita freqüência. Existir, eu quero dizer. Não da maneira convencional do tipo 'eu estou viva', mas do tipo 'minha vida se resume a isso'. Disse a mim mesma que as coisas poderiam ser diferentes se eu quisesse e então percebi que não queria. Eu não gostava de mudanças. Nunca gostei. Porque, na maioria das vezes, quando você muda uma coisa, por mais valiosa que seja, você acaba se esquecendo de como ela foi anteriormente. E todas as lembranças, sejam elas boas ou ruins, vão embora com essa...coisa. Uma vez me disseram que não se deve olhar para trás, para os erros. Mas eu penso diferente. O que seria de nós sem os erros? O que seria da nossa vida sem fazer escolhas erradas e aprender com elas mais tarde? Eu sabia que errar era ruim, mas era parte da merda do processo pra se tornar uma pessoa melhor, não é? E pensando nisso respirei fundo enquanto avaliava tudo o que deixei passar. Tudo o que havia feito, todas as escolhas erradas. Uma vez minha mãe disse que eu era uma pessoa amargurada, que não gostava de viver. Pensei em responder, mas eu apenas fiquei quieta. E aquela noite eu pensei no que ela disse. Eu era amargurada, mas só porque já havia errado tanto e tinha que conviver com o que havia provocado todo maldito dia. Talvez eu não tivesse vontade de viver, mas só porque vi meus sonhos irem embora e se quebrarem diante de mim um por um. E seus sonhos são como objetivos, ambições. Se eu não tinha nada pelo qual me esforçar, eu não tinha motivos pra continuar aqui. Eu era a droga de um peso morto e sabia disso. E mesmo assim eu fui egoísta o suficiente pra continuar. Vi os anos se arrastarem e com eles a chance de conseguir algo pra mim. Sabe, recolher os pedaços do que havia restado de todo o meu futuro e tentar seguir em frente. Mas eu não fiz. E enquanto buscava forças em meu corpo e pedia a minha mente um pouco de conforto, pronta pra levantar da cama e conviver com minhas escolhas erradas, percebi que admitir os erros sempre vai ser mais fácil que aprender a conviver com cada um pesando em suas costas. Aquele dia eu não saí da cama.
Ouça-me bem, amor. Preste atenção: o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos; vai reduzir as ilusões a pó.
(Cazuza, O Mundo É Um Moinho)