segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

viver em dor, o que ninguém entende

Clarisse era Clarisse. Clarisse com seus livros e defeitos, Clarisse com seus sorrisos que não valiam de nada e discos de vinil espalhados pelo quarto. Era Clarisse com as unhas quebradas e olhos vermelhos; Clarisse com punhos e tornozelos cortados; Clarisse com a lâmina escondida no meio de suas meias. Clarisse com seus cigarros e Clarisse com sua ânsia por respostas. E tudo cheirava a morte, quando ela se ocupava em respirar; e doía, doía, mas ela aprendeu a não se importar com a dor. Era a Clarisse tímida com a risada alta demais. Clarisse que chorava por tudo e pedia desculpas por tudo. Que tinha medo e se escondia embaixo das cobertas; Clarisse que soluçava, porque mesmo estando rodeada por uma multidão, era sozinha; Clarisse de ninguém. Clarisse que falava consigo mesma, tentando entender o mundo; Clarisse com cabelos e cabeça bagunçada - Clarisse louca com seus livros e sua música, Clarisse com seus personagens inventados, Clarisse com seus contos. Clarisse que não era real, mas sempre fora Clarisse.

"Mas esse vazio ela conhece muito bem/De quando em quando é um novo tratamento/Mas o mundo continua sempre o mesmo"