Não sentia mais dor.
Seus braços, pernas e barriga sangravam, mas não sentia a ardência dos cortes. Há muito aquele sentimento havia a deixado, levando consigo a sensação de prazer - gostava de ver seu sangue pingar e escorrer por sua pele pálida.
Agora, no entanto, tudo o que sentia quando encarava as manchas de sangue seco em seu corpo era repulsa.
Repulsa de si mesma.
Porque todos estavam vivendo normalmente, e ela havia se fechado em um casulo com medo de encarar a realidade. Repulsa de si mesma, porque havia permitido se deixar levar por toda aquela angústia e agora não tinha forças nem mesmo para chorar.
E, acima de tudo, sentia nojo, raiva e pânico, porque sabia estar fazendo as pessoas que amava sofrer, mas nem mesmo aquilo era suficiente para que permitisse que as lágrimas rolassem por sua face magra – o lábio amargo.
Ela olhou pela última vez para o céu escuro – e macio. Macio como veludo. Salpicado por milhares de estrelas que eram bonitas, mas não iluminavam nada – e sentiu seu corpo cair em queda livre - os olhos fechados impedindo que qualquer lágrima caísse. E quando seu corpo se chocou contra a água, as manchas de sangue foram embora - lavando seu corpo e sua alma.