domingo, 3 de abril de 2011

"Por que você acha que o rock significa tanto para as pessoas?"

"Porque é primitivo e não tem embromação... é o melhor de tudo. E mexe com a pessoa. É a batida. Na floresta, eles têm o ritmo, no mundo inteiro. Você faz o som, todo mundo adere. Eu li que Malcom X, Eldrige Cleaver ou alguém famoso disse que, com o rock, os negros permitiram que os homens brancos de classe média usufruíssem de seu corpo novamente, colocaram o corpo e a mente ali. É mais ou menos isso. Mexe com a pessoa. Comigo, mexeu. De todas as coisas que estavam acontecendo quando eu tinha 15 anos, foi a unica que conseguiu mexer comigo. O rock era real. Tudo mais parecia ilusório. O lance do rock, do bom rock 'n' roll - o que quer que "bom" signifique, e toda essa merda - é que é real. E o realismo mexe com a gente, quer queira quer não. A pessoa reconhece a autenticidade ali, como na verdadeira arte. O que quer que seja arte, caros leitores. É isso. Se é autêntico, em geral é simples. E, se é simples, é verdadeiro. Mais ou menos isso."

(Lembranças de Lennon, Pág. 87)

sábado, 19 de março de 2011

He's as blind as he can be

He's a real nowhere man
sitting in his nowhere land
making all his nowhere plans
for nobody
[...]
Doesn't have a point of view
knows not where he's going to
Isn't he a bit like you and me?

(Nowhere Man, The Beatles)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Note

Note que nunca fui apenas uma pessoa. Fui, e continuo sendo algumas faces e versões felizes e tristes de mim, de outros. Note que nunca tive um só sorriso. Note que nunca tive um só olhar. Note que nunca estive segura, nunca estive no lugar certo. Note minhas pernas cansadas de correr em círculos e parar no mesmo lugar. Note e anote em seu pequeno bloco de anotações, perceba que sou Clarisse e Julia, sou uma bagunça em forma de menina mulher que não consegue crescer. Note, note e anote, perceba; perceba que não sei quem sou.

domingo, 6 de março de 2011

the big 'x'

Sou assim; sofro antecipadamente, sempre. Eu ainda não sei o que me espera, mas antes que eu possa controlar as lágrimas já estão jorrando dos meus olhos como uma enxurrada que demora muito pra cessar. Quando alguém diz que 'precisa conversar' imagino milhares de coisas que posso ter feito de errado para deixá-lo chateado. Quando estou prestes a cair no chão, fecho os olhos e posso imaginar a dor que vem junto. Quando o relógio marca as cinco da tarde, mas o céu está escuro, sinto sono. Quando assisto a uma série e o personagem ainda sequer abriu a boca, me dou ao trabalho de rir horrores. E é como costuma ser, dou um passo a frente e cinco para trás mais tarde, tornando a repetir o possível erro mais vezes. Mas agora a menina viu que é errado, que não é justo; é doloroso.
Porque, ela percebeu, quando as coisas começarem a desmoronar de verdade, estará tão centrada em sua própria dor que sequer perceberá o chão sumir abaixo de seus pés. Serão seus braços e pernas segurando firmemente ao redor de seu corpo quebrado numa tentativa de manter os pedaços juntos; sua cabeça estará em queda livre até a inconsciência quando finalmente perceber que deu voltas em torno do nada, chegando a lugar nenhum e então deixando uma vida que pediu, pediu desesperadamente, para ser vivida, para trás.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

viver em dor, o que ninguém entende

Clarisse era Clarisse. Clarisse com seus livros e defeitos, Clarisse com seus sorrisos que não valiam de nada e discos de vinil espalhados pelo quarto. Era Clarisse com as unhas quebradas e olhos vermelhos; Clarisse com punhos e tornozelos cortados; Clarisse com a lâmina escondida no meio de suas meias. Clarisse com seus cigarros e Clarisse com sua ânsia por respostas. E tudo cheirava a morte, quando ela se ocupava em respirar; e doía, doía, mas ela aprendeu a não se importar com a dor. Era a Clarisse tímida com a risada alta demais. Clarisse que chorava por tudo e pedia desculpas por tudo. Que tinha medo e se escondia embaixo das cobertas; Clarisse que soluçava, porque mesmo estando rodeada por uma multidão, era sozinha; Clarisse de ninguém. Clarisse que falava consigo mesma, tentando entender o mundo; Clarisse com cabelos e cabeça bagunçada - Clarisse louca com seus livros e sua música, Clarisse com seus personagens inventados, Clarisse com seus contos. Clarisse que não era real, mas sempre fora Clarisse.

"Mas esse vazio ela conhece muito bem/De quando em quando é um novo tratamento/Mas o mundo continua sempre o mesmo"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

faz de conta que tudo o que ela tinha não era de faz de conta

Ela não se importou em olhar para trás, para todas as expressões curiosas e divertidas que a encaravam enquanto se preocupava em manter-se em cima dos saltos apertados; o 'poc poc' soando de modo ritmado contra o assoalho de madeira enquanto se dirigia até o balcão de aparência imunda do outro lado do salão de aspecto igualmente deplorável. Um homem de dentes amarelados e cabelos ralos e sujos lhe atendeu com um sorriso beirando ao cinismo enquanto lhe perguntava o que queria tomar. Ela pediu algo forte enquanto se ocupava em tirar os sapatos e cruzava as pernas de maneira pouco confortável, se inclinando o suficiente para apertar as solas dos pés; os olhos cansados e o corpo tenso. Ergueu os olhos o suficiente para encontrar o sorriso de escárnio do homem que lhe entregava sua bebida; um pequeno copo cheio de um liquido âmbar que ela não se preocupou em identificar; um leve tremor tomando conta de seu corpo enquanto virava o copo de uma só vez e o líquido desconhecido descia queimando por sua garganta, esquentando seu corpo imediatamente. O homem ergueu as sobrancelhas, surpreso, no mesmo instante em que ela lhe devolvia o copo e pedia uma nova dose. E isso se repetiu uma terceira, quarta, quinta e sexta vez; não podia sentir suas pernas e sua cabeça, agora recostada contra o balcão, pesava uma tonelada.
-Dia ruim? - a voz grave do homem soou em seus ouvidos e ela se limitou em erguer um pouco os olhos, sorrindo meia boca enquanto fazia um gesto ordenando que lhe enchesse o copo mais uma vez.
-De certa forma, sim. - e ela contou. Contou que havia sido promovida a gerente executiva aquele dia, que na semana passada havia recebido um telefonema de seus pais, contando que a cirurgia para retirada de um pequeno tumor na região do cérebro de sua mãe havia corrido bem e que ela estava se recuperando. Contou que o namorado com quem estava há quatro anos, finalmente havia decidido levar seu relacionamento a sério, a convidando para morar com ele - coisa que ela vinha esperando há tempos. Contou que finalmente havia quitado a divida do carro que tanto havia suado para comprar e que finalmente poderia se dar ao luxo das merecidas férias que vinha planejando para o meio do ano. Tudo estava correndo bem. Era uma mulher bem sucedida, com bons amigos, uma família unida e um namorado que amava.
-Perdão, mas, eu não entendo - o homem disse enquanto se recostava no balcão, coçando a parte de trás da nuca, confuso - esses são motivos para se comemorar. Não vejo motivos para essa melancolia.
Ela riu para si mesma, enquanto virava o copo e puxava uma nota da carteira, a depositando de qualquer maneira em cima do balcão.
-É só que eu estou esperando o momento em que algo vai acontecer para estragar isso. - ela disse piscando, os sapatos nas mãos enquanto caminhava para fora do bar.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Flores

Tenho medo de contar a alguém que talvez esteja um pouquinho louca. Acho que não conseguiria explicar essa sensação estranha que sinto dentro de mim. É como se uma mão invisível apertasse meus pulmões e, certas vezes, meu coração também. Eu sinto essa dor estranha, que não dói de verdade, mas me faz perder o fôlego e ver tudo num tom melancólico de cinza. Algumas vezes eu não sei o que sentir, mas em dias como hoje eu só posso sentir medo. Não sei quão absurda posso soar, mas parece que o Anjo Triste da Morte me faz visitas constantes, mesmo quando eu estou acordada. Quase posso ver as asas branquinhas de longe e sentir dois pares de olhos me perfurando e analisando, com cautela, sem se aproximar, mas sem se mover de onde está. Eu sinto medo e sei que só o que me resta é orar pra Deus tirar essa angústia de mim, mas parece que quando isso acontece, eu não encontro palavras pra lhe dirigir. É em momentos como esses, que eu me pergunto o quão doloroso pode ser morrer. Se o medo das pessoas, tão absurdo, é só porque não sabemos de fato o que encontrar depois que deixar tudo aqui. Eu fecho os olhos com força e respiro fundo, começando a pensar em todas as escolhas que já fiz, fossem elas boas ou ruins. Me pergunto o que pesaria mais pra me fazer ir pro céu; se minhas escolhas ruins e todos os pecados que já cometi ou se o momento em que deixei essa vida de lado e me entreguei à Deus como nova criatura. Porque nem mesmo essa determinação é capaz de me fazer deixar de ser alguém com defeitos e errar todos os dias. Queria que Deus me fizesse ver através de seus olhos, me mandasse um sinal que seja, para poder enxergar o que estou perdendo, onde estou errando. Queria que esse cheiro de morte fosse embora.