Eu vivi. Eu fui eu mesma, me resgatei no meio de tantas Julias e Clarisses por algumas horas e foi reconfortante e libertador, ainda que tenha sido por algo tão bobo. Eu gritei quando quis, chorei quando deveria e fui feliz sem atrasos, tudo isso porque me arrisquei. Se em qualquer outro momento me perguntassem o que era a perfeição, eu não saberia o que dizer - mas naquele dia, seria fácil como respirar, responder que viver sem medo do mundo é o que torna tudo libertador. Tão mais gostoso que uma enorme taça de sorvete num dia de calor ou um abraço apertado num dia difícil. É bom olhar pro céu e imaginar o que existe além, sem medo de tropeçar nos pés ou parecer bobo diante dos olhos de alguém. Poder rir alto e de maneira esquisita, sem vergonha do que vão achar. Ficar o dia inteiro de pijamas comendo besteira. Andar descalço por aí, sem medo de cortar os pés nos cacos do espelho despedaçado que refletia um mundo feio e doente. No mundo perfeito pra onde eu fugi por um dia inteiro, não existia sujeira nem hipocrisia. Éramos meia dúzia de meninos perdidos, renegados pelo mundo e amados pelos Criador. Eu observei a lua até que desaparecesse e não dormi, só pra ver o sol nascer. Foi lindo. Imaginei que tinha alguém pintando o céu com os dedos lambuzados de tinta, e sorri.
