Existem aqueles que se perdem de maneiras destrutivas; a estes, não existe a chance de encontrar o caminho de volta. Ludibria e cria fantasias; permite que estes tolos viajem sem sair da sala e beijem as nuvens mais altas do céu sem tirar os pés no chão, mas o resultado desastroso é tão inevitável quanto o que se poderia esperar de alguém que fez todas as escolhas erradas na vida.
Também se perdem aqueles que excitados por um som – o arranjo bonito de uma sinfonia ou palavras doces sussurradas por alguém que a gente ama - bebem tudo o que ouvem. Acreditando e se deixando levar por coisas que talvez não devessem fazer sentido por serem tão vazias. Estes são aqueles que precisam saber de qualquer um que, independente de tudo, o mundo continua o mesmo e está tudo bem. As pedras continuam sendo pedras e as pessoas ainda precisam de ar para continuar vivendo. Tão certo como o sol nascer todos os dias, existe a certeza de que em algum momento, entre o certo e errado, se encontrem para dizer que aprenderam a se virar.
Eu sou daquelas que se perde entre as páginas de um livro surrado e marcado por mãos suadas e ansiosas por um final satisfatório; me permito esquecer de tudo o que existe a minha volta e sem pensar duas vezes me torno um personagem abstrato daquela estória; um narrador dispensável que se contenta em exclamar seus "oh's" e "ahh's" de vez em quando. Em certo ponto, alguém observaria enquanto eu, com meu nariz enterrado entre as folhas de um livro, riria de forma estridente ou choraria de maneira desconsolada, porque sem querer me tornei muito mais fiel aquele mundo e a seus personagens do que se podia esperar.
Às vezes me pego observando as pessoas e me impressionando com o quão influenciável o mundo pode ser; não importa de que maneira, todos nós acabamos por nos perder. O mundo seria um lugar melhor se não fosse mundo. Se não vivêssemos através do reflexo doente de um espelho, se não fizéssemos todos parte de uma sociedade fútil que mais parece uma tribo de canibais a espera da carne e sangue de alguém. Me acho quando o livro acaba, mas volto a me perder – dando mais e mais voltas – quando saio do meu papel de narrador e expectador.
É fácil entender porque as pessoas se perdem com tanta facilidade; é mais fácil estar alheio a toda a ignorância do mundo a ter de conviver com ela. Você nasce e cresce atento ao fato de que em algum momento terá de fazer uma escolha – como pretende se perder? – que vai ditar a sua vida dali para frente. E mesmo assim você não escapa do mundo. Você não escapa das escolhas e da mesquinharia das pessoas, mas acima de tudo você não escapa de quem você realmente é. Não importa quantos livros você leia, ou quantas pessoas você ame, ou quanta porcaria você obrigue seu corpo a ingerir.
Veja bem; o engraçado da vida, é que não importa a sua escolha – a maneira com a qual você se perdeu e mais tarde se encontrou, como você viveu. Mais inevitável que o possível resultado de suas ações, é a morte. Onde todos são iguais e compartilham do mesmo destino, onde a semelhança finalmente será friamente exposta. Todos nós deixaremos de tentar ser o que nunca fomos para sermos acolhidos e engolidos pela mesma terra que foi motivo de tanta ganância; tantas idas e vindas, encontros e desencontros.